DEPRESSÃO E A BUSCA DA FRONTEIRA FINAL

“Devemos passar pela solidão e pela dificuldade,
pelo isolamento e pelo silêncio,
para encontrar o lugar encantado em que
possamos dançar nossa dança desajeitada
e cantar o nosso triste canto. 
Mas nessa dança, e nesse canto,
os mais antigos ritos da nossa consciência
se realizam na certeza
de que somos humanos.” (Pablo Neruda)

 

Considerada o “mal do século” e escolhida como tema, pela OMS, no Dia Mundial da Saúde em 2017.

Presente como sintoma em muitos outros transtornos psíquicos e a grande vilã por trás da maioria dos suicídios.

A simples presença dessa doença deveria levar a humanidade a muitas reflexões e questionamentos.

Nossa sociedade está enferma, mas quase sempre fugimos dessa dura realidade.

O que me chama atenção é a explosão dessa doença justamente na mesma época em que houve a explosão tecnológica.

Essa tecnologia que, na maioria das vezes, se coloca a serviço do entretenimento e da comunicação global sem fronteiras.

A explosão que coloca nossas atenções para fora do ser, e aí chega uma doença que tem, como uma das características principais, a introspecção. O mergulho na escuridão de um buraco que se apresenta cada vez maior e mais profundo.

O mundo grita nos chamando para fora e a depressão nos chama pra dentro, talvez para nos mostrar que a comunicação sem fronteiras esbarrou numa fronteira importantíssima e esquecida: A FRONTEIRA DO SER E DO EXISTIR.

Quando alguém está na depressão, frequentemente usa a metáfora de estar “no fundo do poço”. Esse isolamento nos força a entrar em contato com a pessoa mais negligenciada e esquecida: NÓS MESMOS.

O problema é que na depressão, esse encontro forçado com a fronteira do ser e do existir, está altamente contaminado de negativismo e críticas severas sobre si mesmo.

A falta de amor próprio nos impede de amar verdadeiramente alguém ou algo. E a depressão vem escancarar essa falta de amor próprio e de fé.

Ela nos puxa para baixo, exatamente como diz a etimologia da palavra, que vem do latim:

“DE” = para baixo + “PREMERE” = apertar, comprimir, pressionar.

Ela nos pressiona para visitarmos essa fronteira desconhecida e temida.

O problema é que nos envergonhamos do que entra em contato, pois a doença nos mostra o “feio”, o “rejeitado” dentro de nós.

Então, ouso a dizer que a depressão é a doença da ilusão, pois é mentira que sejamos só “feios” e “maldosos”.

É ilusão darmos o poder da nossa vida para o pessimismo e a escuridão.

Nós não somos tão feios, mal e culpados, como a depressão nos mostra. Há muita beleza, bondade e força em todos nós.

Um dia li que o oposto das trevas é o conhecimento.

Então vamos nos conhecer, pois só podemos amar aquilo que conhecemos.

Que a busca da cura desse “Mal do Século” possa nos forçar a ultrapassar essa fronteira tão abandonada de nós mesmos. E que nesse contato, haja a comunicação verdadeira e profunda nos levando a uma aceitação, compaixão e amor próprio.

E que assim o amor possa crescer de dentro para fora e contaminar o mundo.

VERÔNICA DUTENKEFER

26/04/17

https://www.youtube.com/watch?v=dG7BMQQUREE&t=6s